3 de setembro de 2010 | 12:43h | Boa tarde     


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Marcus Zulian Teixeira*

Em todas as épocas, incomodados com posturas preconceituosas dos seus pares, grandes pensadores e ilustres cientistas definiram esses julgamentos formados sem maior ponderação ou conhecimento dos fatos: “O preconceito é uma opinião não submetida à razão” (Voltaire); “Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo que um preconceito” (Einstein); “Os preconceitos têm raízes mais profundas que os princípios” (Maquiavel).

Apesar de a Ciência ser uma área do conhecimento cuja finalidade é estudar e definir os princípios dos fenômenos, necessitando estar isenta de preconceitos para cumprir seu desiderato, o orgulho científico obscurece a mente dos pesquisadores, que desprezam tudo aquilo que desconhecem ou que não faz parte do seu cabedal de conhecimentos. A história da humanidade está repleta de exemplos em que determinadas teorias ou hipóteses consideradas “polêmicas” perante o modelo científico de uma determinada época, tornaram-se leis inquestionáveis no futuro, em vista do aperfeiçoamento dos métodos de investigação.

O desenvolvimento da nanociência e da nanotecnologia não é um exemplo desse avanço? Há algumas décadas, quem poderia imaginar que nanopartículas de ouro (da ordem de 10-6 milímetros, ou seja, 80 mil vezes menores do que o diâmetro de um fio de cabelo) poderiam ser empregadas no diagnóstico do câncer, identificando tumores precoces? No entanto, isso é uma realidade atual.

Infelizmente, duas matérias publicadas recentemente no caderno “Ciência”, da Folha de São Paulo (“Descobridor do HIV defende a polêmica memória da água” e “Pesquisa rendeu Prêmio Ig Nobel a francês”, 30/06/10), exemplificam o preconceito científico dos autores, ironizando os recentes trabalhos científicos do pesquisador Luc Montagnier, laureado com o Prêmio Nobel de Medicina em 2008, nos quais traz novas evidências em prol da teoria da "memória da água", utilizada para explicar o funcionamento das “ultradiluições homeopáticas”. (1)

Transmitindo aos leitores uma visão parcial dos fatos, os autores questionam o “brilhantismo” do ganhador de um Prêmio Nobel, desprezando a “qualidade científica” de suas publicações e induzindo os leitores ao questionamento de sua “capacidade de juízo” (dizendo que ele é um dos candidatos a receber o “Prêmio Ig Nobel”, “O Nobel de Gozação”, como Benveniste recebeu duas vezes no passado).

Como a biografia e o currículo do pesquisador tornam bizarras as críticas à sua integridade científica e psíquica, vale ressaltar que outras pesquisas, excluídas nas referidas matérias, evidenciam a “atividade biológica” das “ultradiluições homeopáticas”.

Madeleine Ennis (farmacologista e pesquisadora da Queen’s University, Belfast, Reino Unido) e colaboradores publicaram estudos multicêntricos no periódico científico Inflammation Research (2-5) que endossam os resultados da pesquisa de Jacques Benveniste publicada no periódico Nature em 1988 (enfaticamente criticada nas referidas matérias). Apesar do viés de ceticismo “anti-homeopático” inicial, essa pesquisadora declarou-se surpresa com os resultados, que não puderam ser explicados pela farmacologia convencional. Outros modelos de pesquisa, citados e discutidos em recentes revisões no periódico Homeopathy (6,7) também evidenciam a atividade biológica das preparações homeopáticas.

A “memória da água” também está sendo estudada por modelos de pesquisa físico-químicos, com estudos citados e discutidos em outra revisão publicada no periódico Homeopathy (8). Exemplificando essas propostas de pesquisa, Louis Rey constatou a “informação” contida nas ultradiluições homeopáticas através do estudo da termoluminescência das substâncias (9). Estudos teóricos e experimentais buscam explicar a “memória da água” através da geometria dos “clusters de água”, agregados de moléculas de água de tamanho e forma específicos ao campo magnético dos solutos dinamizados (ultradiluições homeopáticas), que induzem novas propriedades à água independente da presença do soluto.

Contrapondo o movimento contracultural que despreza a importância dos estudos científicos no desenvolvimento da Homeopatia, defendemos a necessidade da elaboração de projetos de pesquisa (básica e clínica) que fundamentem os pressupostos homeopáticos perante a racionalidade científica moderna, buscando uma linguagem comum que aproxime ambos os paradigmas e permita a prática de uma futura medicina integrada.

No entanto, posturas preconceituosas de ambas as partes dificultam o diálogo e o entendimento entre essas racionalidades médicas distintas, que podem e devem atuar de forma adjuvante e complementar no tratamento das inúmeras enfermidades que assolam a humanidade.

Referências Bibliográficas:

1) Montagnier L, Aissa J, Ferris S, Montagnier JC, Lavallee C. Electromagnetic Signals Are Produced by Aqueous NanostructuresDerived from Bacterial DNA Sequence. Interdiscip Sci Comput Life Sci. 2009; 1: 81-90.

2) Belon P, Cumps J, Ennis M, Mannaioni PF, Sainte-Laudy J, Roberfroid M, Wiegant FA. Inhibition of human basophil degranulation by successive histamine dilutions: results of a European multi-centre Trial. Inflamm Res. 1999; 48 Suppl 1: S17-8.

3) Brown V, Ennis M. Flow-cytometric analysis of basophil activation: inhibition by histamine at conventional and homeopathic concentrations.Inflamm Res. 2001; 50 Suppl 2: S47-8.

4) Belon P, Cumps J, Ennis M, Mannaioni PF, Roberfroid M, Sainte-Laudy J, Wiegant FA. Histamine dilutions modulate basophil activation. Inflamm Res. 2004; 53(5): 181-8.

5) Ennis M. Basophil models of homeopathy: a sceptical view.Homeopathy. 2010; 99(1): 51-6.

6) Special Issue: Biological models of homeopathy Part 1. Homeopathy. 2009; 98 (4): 183-302.

7) Special Issue: Biological models of homeopathy Part 2. Homeopathy. 2010; 99 (1): 1-88.

8) Special Issue: The memory of water. Homeopathy. 2007; 96(3): 141-230.

9) Rey L. Thermoluminescence of ultra-high dilutions of lithium chloride and sodium chloride. Physica A. 2003; 323: 67- 74.




*Médico homeopata, PhD e pesquisador da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) / www.homeozulian.med.br


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COMENTÁRIOS (15)

CELIO LEVYMAN às 11:19h do dia 27/8/2010
A propósito,nos anos 1990,houve a criação ilegal de um certo Conselho Federal de Terapias,que abarecava da homeopatia,acupuntura e psicanálise a búsios,aura e até dança do ventre !O CFM,o CRM de SP e o MPF em SP entraram com ação conjunta na Justiça Federal:houve publicação de ato ilício no Diário Oficial da União (a sindicância não achou culpados),e o juiz federal mandou fechar a sede da entidade na av. 23 de Maio e proibir o uso do brasão da República (havia até um carro de fiscalização...),sob multa de mais de R$ 10.000,00 diários.Afinal,não é apenas homeopatia:há picaretagem em toda essa área.Não contentes,conseguiram os prepertradores do ato que uma pequena cidade do interior de SP,não lembro qual,criasse a Autarquia Municipal Conselho Federal de Terapia,alem do Sindicato dos Terapeutas.É muito...



CELIO LEVYMAN às 15:40h do dia 23/8/2010
Interessante o comentário do Pedro.Embora o Ministério Público Federal - tenho grande admiração por muitos Procuradores da República - não decida nada,apenas ajuiza ao Poder Judiciário Federal,vem ao encontro do que aqui coloco.A homeopatia NÃO é especialiodade médica,até na opinião no MPF,não apenas de nós,.os "médicos malvados".


PEDRO ANTÔNIO às 15:50h do dia 20/8/2010
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL DECIDIU: A HOMEOPATIA NÃO É EXCLUSIVIDADE MÉDICA




CELIO LEVYMAN às 10:07h do dia 20/8/2010
Regina Helena,seu comentário me pareceu equivocado.A medicina tradicional (recuso o termo alopata,pois foi introduzido pelos homeopatas e quer dizer algo como "fazer mal aos pacientes") não esconde nada;ao contrário da homeopatia,que se assemelha a uma seita,somos obrigados a pesquisar e provar aquilo que fazemos,publicar e aguardar que outros pesquisadores reproduzam nossos trabalhos para validar ou não um dado fisiopatológico,uma conduta diagnostica,terapêutica,etc.É exatamente o que a homeopatia não faz.E,em não o fazendo,está na contra-mão da medicina de per se,daí a razão pela qual deve ser revisada a resolução CFM 1000/80,para que deixe de ser especialidade médica.Ela nada tem em comum com as demais áreas da profissão.


REGINA HELENA PASSOS FIALHO DE OLIVEIRA às 11:07h do dia 17/8/2010
Se a Homeopatia merece tantos questionamentos inclusive por mestres, será que não esta atrapalhando certos itens que a Medicina Alopatica tenta esconder? Não carece discutir se serve ou não serve, existe fatos revelados da cura de muitas molestias que a Medicina deixou de dar uma resposta, acredito e divulgo que a Homeoptia é uma especialidade de quem a torna um serviço a todas as classes de pacientes que veem ao meu consultorio.


CELIO LEVYMAN às 08:13h do dia 12/8/2010
Provem através do método científico que a homeopatia funciona para os pacientes,nem mesmo como age.Nem isso há.Nos bancos de dados Cochrane de medicina baseada em evidências não há uma só que justifique ser especialidade médica.Nos anos 1990 o Prof. Isais Raw,professor emérito da Faculdade de Medicina da USP,após escrever artigo na Folha,foi denunciado ao CREMESP,que arquivou a denuncia,mesmo tendo entre seus conselheiros um dos lideres da homeopatia no Brasil,aliás meu amigo e pessoa competente.O Prof. Vicente Amato Neto,também professor emérito da USP,a contesta.Assim como Drauzio Varella do Sírio-Libanês e da literatura e imprensa,Renato Sabattini da UNICAMP,entre centenas de outros.Mas quem escreve a respeito é perseguido.A vida é assim,doutor.


CELIO LEVYMAN às 08:10h do dia 12/8/2010
Acrescento ainda que faço parte de câmaras técnicas do Conselho Federal de Medicina;o CFM não adverte ou pune ninguem,essa é atribuição dos regionais.Age em recurso,como segunda instância.Alguns colegas homeopatas seus já tentaram representar contra mim no CRM de SP,e naturalmente tais denuncias foram arquivadas.Volto a dizer:a homeopatia só é especialidade médica aqui por razões que desconheço,lá de 1980.E isso precisa ser revisado.E assim é com os pesquisadores suiços em artigo do Lancet,os britânicos questionando a homeopatia e a retirando da área pública no Reino Unido,os canadenses não a considerando área médica,etc.


CELIO LEVYMAN às 10:34h do dia 10/8/2010
Dr. Francisco E. Silva:sou médico,registrado no CREMESP sob numero 39313.Sou mestre em neurologia pela UNIFESP,e fui fellow das Universidades Harvard e de Pittsburgh nos EUA e de Munique na Alemanha.Fui Conselheiro e Diretor do CREMESP.Fui professor universitário e preceptor de internos e residentes.Atualmente atuo apenas em consultorio e em hospital privado de grande porte em SP.Minhas opiniões são conhecidas:falta o conhecimento da metodologia científica para validar a homeopatia.A medicina tradicional não é a mãe das soluções,não resolve tudo,não somos donos da verdade:mas trabalhamos baseados em evidências - fora disso não há ciência.E a resolução CFM 1000/80 em meu entender está errada - não há infração ética em solicitar a revisão da mesma,e digo com conhecimento de causa.Mais cautela,doutor.


FRANCISCO ERATÓSTENES DA SILVA às 16:16h do dia 28/7/2010
Lamentável a postura do sr. Célio Levyman, que se diz médico. Preconceituosa mesmo, como o título do artigo, que está bem fundamentado pelo autor. Se o mesmo for médico (informou seu CRM ?), como se intitula, merece a censura pelo Conselho Federal de Medicina, pelo comportamento anti-ético aos seus pares. Deveria reconhecer também que, segundo o Código de Ética Médica recomenda, o médico deve utilizar todo o conhecimento médico disponível em prol de seus pacientes, que necessariamente não é apenas o conhecimento alopático. Aliás, para o seu conhecimento, a Homeopatia não é tratamento alternativo, e sim oficializado pelo CFM. Se não concordar, questione diretamente a entidade médica máxima do Brasil.

Francisco Eratostenes da Silva- CRM 3689
Presidente da Associação Médica Paraense de Homeopatia



MARISE CARDOSO LOMBA às 12:20h do dia 28/7/2010
Amigos! É importante que não deixemos o público sem esclarecimento acerca do que é a Homeopatia e a divulgação de nossos trabalhos e experiências ambulatoriais que produzem efeitos tão benéficos em nossos pacientes; É justo que seja feita esta demonstração junto às populações que dispõem apenas de um modo forjado pela mídia comprometida com uma forma-pensamento imediatista e superficial do tratamento e cura dos estados do adoecimento; Devemos agradecer e incentivar nossos profissionais e apoiadores a escrever mais, trabalhar academicamente, buscar legitimação para nossas pesquisas e tempo para abordagens que demonstrem uma rotina de confirmações que se perdem dentro de nossas salas de consultas. Não precisamos PROVAR eficácia da Homeopatia, mas sim divulgar resultados para comprovar esta validação científica. Parabéns, Marcus! Obrigada!


ORLANDO MARETTI às 12:32h do dia 19/7/2010
Prezado Dr.Marcus, concordo plenamente com sua análise e compartilho de sua indignação pelo tratamento dado pelo colunista da sessão "Ciência" (sic) da folha de S.Paulo, que em vez de buscar e informar aos leitores as razões que levaram o Dr.Luc Montagnier a elaborar seu estudo, preocupou-se apenas em desdenhar o íntegro pesquisador científico do Instituto Pasteur. Se me permite, agrego um fator tão forte quanto o preconceito a essa polêmica que envolve a Homeopatia. Trata-se do interesse econômico, principalmente das grandes multinacionais farmacêuticas, que dispendem mais recursos em propaganda e marketing do que em pesquisa. O próprio Dr.Montagnier foi vítima dessa competição irracional movida pela ganância. O médico ítalo-americano Robert Gallo, com quem mantinha um acordo para divulgarem juntos suas conclusões sobre o vírus da AIDS, apropriou-se de algumas informações de Montagnier e divulgou seus resultados unilateralmente, sem qualquer escrúpulo ou preceito ético.


DR. SEBASTIÃO LUIZ RODRIGUES MOREIRA às 22:14h do dia 18/7/2010
Zulian,como sempre muito lúcido e didáico, sabe do que está falando. O preconceito sempre fez com que grandes descobertas fossem incialmente rejeitadas, o automóvel, a eletricidade, a televisão, a impermanencia do átomo, tiveram que esperar até que a evolução científica fosse capaz de atingir patamares capazes de desvelar tais proposituras. Com a homeopatia sucede o mesmo desde sua criação por Hahnemann há mais de dois séuclos. Os múltiplos interesses da ciência, como compreendida hoje, leva-a a negar mesmo antes de procurar conhecer. Há muito mais do que ciência envolvida nessa rejeição. Felizmente, o Dr. Luc Montagnier não necessita mais da bajulação de seus pares. A homeopatia, por outro lado, continua servindo á humanidade no alívio de suas dores. O tempo e a própria evolução da ciência dirão quem está com a razão, removendo o cínico sorrizo dos rostos dos difamadores.


DENISE SCOFANO às 21:56h do dia 18/7/2010
Marcus, excelente linha de argumentação da sua carta. Acrescento Bastide (1997), que se dedicou a identificar o efeito das altas diluições homeopáticas sobre as células imunológicas, estudo no qual pôde verificar serem as ultradiluições homeopáticas “biologicamente significantes”. As diluições homeopáticas atuam segundo o princípio da autorregulação dos organismos vivos, que são “órgãos de relação”, sistemas abertos funcionando como uma totalidade. Esta característica produz novas funções denominadas de “propriedades emergentes”, onde ocorrem adaptações e processo de aprendizagem, não sendo, por esta razão, o modelo mecânico elementar o mais indicado para estudá-las. É um processo que envolve criatividade e possui finalidade dentro das relações estabelecidas: o ser vivo é uma estrutura complexa que se determina e se conserva em comunicação com seu meio, interno e externo.


IVAN DA GAMA TEIXEIRA às 16:05h do dia 16/7/2010
Parabéns Marcus , pela lucidez do texto principalmente por "No entanto, posturas preconceituosas de ambas as partes dificultam o diálogo e o entendimento entre essas racionalidades médicas distintas, que podem e devem atuar de forma adjuvante e complementar no tratamento das inúmeras enfermidades que assolam a humanidade." somente o abando dessas posturas antiquadas poderemos realmente ajudar ao interessado final ,O PACIENTE!!!!


NANCY SANTUCCI MUGLIA às 15:17h do dia 16/7/2010
Texto gostoso de ler, pena que dificilmente vá ser lido pelos que mais precisariam. Vou tentar encaminhar amplamente. Em tempo: eu assino o boletim de inovação tecnológica e aquilo sim parece invenção! Entrem no site para conferir.



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