| 4 de fevereiro de 2012 | 10:42h | Bom dia |

SANDRA ABRAHÃO CHAIM SALLES
“Nas faculdades ninguém fala, ninguém vê, ninguém sabe. Não existe!” (Profissional de Saúde de um Centro de Saúde de São Paulo, 2008)
A imensa maioria dos profissionais de Saúde do país jamais recebeu, em sua Graduação, Pós-graduação ou Educação Continuada,qualquer tipo de informação a respeito da Homeopatia. Se um médico desejar entrar em contato com a Homeopatia ele precisa, ativamente, buscá-la nas poucas instituições de ensino homeopático disponíveis no país. Os números são reveladores: apenas 1 (uma), entre 178 faculdades de Medicina existentes atualmente no Brasil, possui disciplina de Homeopatia como parte integrante do seu currículo. Outras 15 faculdades oferecem conteúdos de Homeopatia em disciplinas eletivas. Ou seja, menos de 10% das escolas médicas brasileiras disponibilizam aos seus alunos a opção de receber informações sobre a especialidade médica Homeopatia. Os alunos de Enfermagem, Fonoaudiologia, Fisioterapia e outras tantas profissões de Saúde também não terão a opção de conhecer algo sobre a Homeopatia entre os muros de suas instituições de Ensino Superior.
Esses dados se tornam ainda mais surpreendentes quando ouvimos as opiniões de alguns representantes de diferentes segmentos envolvidos na Educação Médica: docentes, pesquisadores, coordenadores de cursos e diretores de faculdades de Medicina, alunos da graduação e médicos formados, com argumentos importantes a favor da presença de conteúdos homeopáticos nos programas da graduação em Medicina. A seguir, como exemplo, algumas declarações de docentes, feitas em entrevistas realizadas durante pesquisa de 2006:
A presença da Homeopatia num ambiente de Hospital Universitário tem uma repercussão muito interessante, mesmo quando o estudante não faz aquela opção. Eu acho que ali se constatava algumas coisas que são benéficas para a própria alopatia, ou seja: um grau de humanização da relação médico-paciente, uma valorização de uma abordagem da totalidade do paciente, uma menor fúria terapêutica. Eu acho que essa contraposição de métodos, Homeopatia e Alopatia, aceitos como complementares, tinha um impacto muito grande para os médicos em formação. (Médico não homeopata, chefe de Departamento , foi coordenador de curso Médico de Universidade Federal)
A gente percebe que se dá cada vez mais ênfase a essa Medicina Tecnológica. Nada contra, eu acho que ajuda muito, a tecnologia é fantástica, desde que bem usada, desde que você não queira substituir o ato médico humano, a relação médico-paciente pela máquina. Então, isso é importante que o médico saiba lá no aparelho formador (nas escolas de Medicina), para ele saber os limites da técnica, não querer substituir o ato médico pelo equipamento, pela técnica. Nesse sentido, eu acho que o homeopata poderia colaborar e muito para mudar a mentalidade do médico moderno, formado por esse tipo de modelo que é manipulador, é uma espécie de lavagem cerebral. (Médico não homeopata, Prof. Livre-Docente, foi chefe de Depto. de Neurologia de tradicional escola médica paulista).
Sendo especialidade médica, a Homeopatia se submete aos mesmos regulamentos de todas as outras especialidades, mas não usufrui, ainda, dos mesmos direitos: não é oferecida a toda a população que optar por essa forma de cuidado e não é ensinada na maioria das faculdades da área de Saúde. Quais são os resultados mais visíveis dessa situação?
O desconhecimento cria preconceitos, gera desconfiança e se multiplica em desinformação!
Grande parte dos profissionais de Saúde não sabe que a Homeopatia é uma especialidade médica reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina e pela Associação Médica Brasileira. Ignora que um médico homeopata graduou-se em Medicina como todos os outros médicos e tornou-se homeopata após frequentar um curso de especialização com aulas teóricas e treinamento em prática ambulatorial, ou frequentou uma residência médica em Homeopatia. Ignora que um farmacêutico homeopata, além de sua formação em Farmácia, realizou uma formação e treinamento para se tornar um especialista em Homeopatia.
Quanto aos procedimentos homeopáticos, o desconhecimento é maior ainda. Muitos profissionais de saúde confundem Homeopatia, Fitoterapia, f
Florais e várias outras terapêuticas consideradas “naturais”. Alguns não entendem a razão dessa abordagem tão ampla do processo de adoecimento e julgam o homeopata uma “espécie de psicoterapeuta”. Dessa forma, quando indagados, não podem opinar de forma segura e o fazem baseados em conhecimento informal, no “ouvir falar” ou nos preconceitos herdados.
O desconhecimento impede parcerias possíveis que resultariam em benefício para os indivíduos e para a população.
A Homeopatia tem sido apontada por gestores, médicos e usuários como uma prática capaz de contribuir para o resgate da dimensão humanista da m
Medicina, dentro de uma perspectiva de integralidade. Isso acontece porque a Homeopatia se ocupa do indivíduo em sua totalidade e não apenas de sua doença, o que favorece que médico e paciente estabeleçam vínculos de confiança, estimulando a autonomia dos sujeitos e a promoção da saúde.
Exatamente por reconhecer essa característica da Homeopatia, o Ministério da Saúde publicou em 2006 a Portaria nº 971, que dispõe sobre a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) no Sistema Único de Saúde. Esse documento recomenda a implantação e implementação das ações e serviços relativos a essas práticas (que se referem à Homeopatia, Medicina Tradicional Chinesa-Acupuntura e Fitoterapia) pelas Secretarias de Saúde dos estados, do Distrito Federal e dos municípios, por considerar que elas fortalecem a relação médico-paciente e promovem a humanização na atenção.
Muitos outros profissionais de Saúde, inclusive gestores e médicos não homeopatas que atuam na rede pública, também apreciam esse atributo da prática homeopática, e muitas vezes buscam a Homeopatia como tratamento para si mesmos, ou a indicam para outros pacientes e familiares, principalmente quando estão diante de situações clínicas mais complexas, que necessitam de uma abordagem médica ampliada.
Em entrevistas para uma pesquisa da Universidade de São Paulo, alguns médicos da rede pública afirmaram que saem da faculdade sem ideia alguma sobre a Homeopatia e só aprendem a respeitá-la quando observam seus resultados em pacientes. Eles relatam que em seu trabalho cotidiano, em unidades do Programa de Saúde da Família (PSF) ou em unidades básicas de Saúde, vivem experiências com a Homeopatia que os faz refletir e aceitar essa outra forma de praticar a Medicina, que eles desconheciam:
“Aqui no PSF a gente atende tudo. Aí a gente começou a ver a necessidade de ter a ajuda da Homeopatia nesses pacientes que a gente não conseguia resolver. Essas rinites alérgicas, dermatites, pacientes muito ansiosos, idosos...E a gente começou a pedir auxílio e a gente vê que resolve o problema”. (Médica do PSF.)
“A Homeopatia é uma ajuda para mim, que estou sem a solução para o paciente e uma saída para o paciente, que não vai ficar indo e voltando, indo e voltando, sem cura, sem solução. Eu sei muito pouco da Homeopatia. Eu vejo resultados! E vejo resultados onde a Alopatia não está atuando”. (Otorrinolaringologista que atua no SUS.)
Ainda que a Homeopatia seja reconhecida como uma parceira bem-vinda, por grande parte dos médicos e gestores que atuam na rede pública; ainda que haja uma política publica que propõe a ampliação da presença da Homeopatia na rede pública, o desconhecimento sobre conceitos e procedimentos homeopáticos limita a sua utilização mais ampla como recurso terapêutico e reduz a sua participação nas reflexões sobre estratégias de ação para a promoção da saúde. O desconhecimento também dificulta a interlocução entre profissionais das duas medicinas, impedindo a construção de ações integradas em beneficio de seus pacientes.
Temos a convicção de que essa situação tem origem na ausência de conteúdos sobre Homeopatia na maioria das faculdades da área de Saúde e se fortalece com a falta de atividades relacionadas a essa Medicina nos treinamentos e cursos de Educação Continuada oferecidos aos profissionais já formados.
Não podemos deixar de abordar um outro aspecto do problema: a falta de pesquisadores homeopatas nas universidades. Não havendo espaço formal para as atividades homeopáticas não há contratação de profissionais da área, e aqueles que desejarem realizar pesquisas no campo homeopático dependerão de orientadores que atuam em outras linhas de pesquisa. Com isso a Homeopatia permanece como um campo de pesquisa extremamente desafiador, com um corpo de pesquisadores distribuído por diversas instituições, que, apesar de produzirem e publicarem, não conseguem uma produção mais densa por não disporem de vínculos institucionais que lhes permitam estabelecer um centro de pesquisas homeopáticas.
Para corrigir essa distorção algumas medidas urgentes são necessárias.
Profissionais médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, agentes comunitários de saúde, psicólogos, fonoaudiólogos, e outros que atuam em um centro de saúde escola sugerem que “o contato com a prática homeopática poderia construir noções reais sobre o que é a Homeopatia, como ela atua e em quais situações, transformando o que é hoje questão de fé em uma avaliação objetiva de limites e possibilidades dessa prática médica”.
No âmbito do SUS, como há uma política recente de apoio à Homeopatia como opção de cuidado a ser oferecida a toda a população, é preciso oferecer informações seguras e confiáveis a todos os profissionais de Saúde que atuam na Rede SUS. Serão necessários espaços de discussão e reuniões multidisciplinares com a participação de profissionais homeopatas. Só assim os profissionais não homeopatas poderão se tornar aptos a esclarecer dúvidas dos seus pacientes e saber quando recomendar um cuidado homeopático.
As faculdades devem ser sensibilizadas a participar desse movimento e chamadas a construir, imediatamente, atividades que sejam capazes de informar seus alunos a respeito da Homeopatia e outras práticas integrativas referendadas pelas políticas públicas de Saúde.
Para conduzir essas atividades os diversos municípios do país dispõem de profissionais competentes e experientes, que certamente se habilitarão a participar.
Podemos afirmar que o interesse dos alunos é muito grande. Duas experiências no ano de 2009 nos permitem formular essa observação. Participamos das atividades didáticas de disciplinas eletivas de Homeopatia em duas faculdades de Medicina da cidade de São Paulo – uma federal e outra particular. Os alunos, através de relatos, escritos e orais, fazem referencia à importância de conhecer a Homeopatia para sua formação. Eles chegam a sugerir que a disciplina deveria ser oferecida a todos os alunos e alguns, após o termino da disciplina, se engajam em atividades ambulatoriais através das Ligas de Homeopatia – locais de atendimento homeopático supervisionados, dentro das faculdades de Medicina.
A fala de alguns desses alunos, em relatório final de avaliação da disciplina, demonstra as razões de seu interesse:
“Eu gostei muito do curso, pois pude adquirir um válido embasamento teórico a respeito da Homeopatia. Eu cheguei ao curso com um conhecimento muito restrito e preconceituoso e com o curso pude quebrar uma série de preconceitos e tabus. Muitas questões ainda podem ser aprofundadas, mas foi um excelente curso de introdução ao assunto. A eletiva abordou os principais temas e deu uma noção muito boa da homeopatia e da sua atuação.
“ Acho fundamental que a classe médica conheça os fundamentos e as bases da ação da Homeopatia para não criticar de forma aleatória e também porque os pacientes sempre perguntam sobre homeopatia."
“ Por hora este é o único espaço na escola em que se discute Homeopatia, e acho fundamental o médico ter uma formação ampla e sem preconceitos.”