POR: DR. ADEMAR FONSECA, MÉDICO HOMEOPATA
Desde que surgiram no mundo no final do século XVIII, os homeopatas sempre estiveram presentes no tratamento das grandes epidemias que assolaram a humanidade. Foi assim com a escarlatina (Königslutter, em 1799), com a cólera (Europa, no século XIX), com a gripe espanhola em 1918, entre outras. A atuação dos homeopatas sempre se deu apesar das restrições teóricas ou ideológicas impostas pelas autoridades, mas com o apoio da população que percebia na prática uma possibilidade de cura. Como ilustração, podemos citar o episódio relatado com detalhes na revista Cultura Homeopática (in Cultura Homeopática, pp. 21-24, jul-ago-set, nº 12, 2005) - http://www.feg.unesp.br/~ojs/index.php/ijhdr/article/viewFile/147/15.
Durante a epidemia de cólera que assolou Londres em 1854, a direção-geral da Saúde nomeou uma Comissão Médica com o objetivo de colecionar as estatísticas dos hospitais designados para receber e tratar os doentes de cólera, dentre eles o London Homeopathic Hospital. Enquanto nos hospitais alopáticos as estatísticas apontaram uma taxa de mortalidade de 51,8%, no hospital homeopático a mortalidade foi de 16,4%. E qual foi a atitude tomada pela Comissão dirigida pelo presidente do Royal College of London Physicians? Suprimir do relatório os dados relativos ao hospital homeopático. Quando instado a se explicar junto ao Parlamento inglês, o presidente da Comissão saiu-se com a seguinte pérola:
“A inclusão dos dados fornecidos pelos práticos homeopatas não somente comprometeria o valor e a utilidade das pesquisas da Comissão, relativamente à cura do cólera pela ação dos remédios conhecidos, mas também daria uma injustificável sanção a uma prática empírica, inteiramente contrária à manutenção da verdade e ao progresso da ciência.”
Este “modelo de atitude científica livre de preconceitos” terá mudado substancialmente passados mais de 150 anos? Acesse o nosso fórum e participe da discussão.
A atuação dos homeopatas nas epidemias contemporâneas
Que tipo de resposta a sociedade civil recebe das autoridades quando pergunta o que pode a Medicina Homeopática fazer pelos cidadãos ameaçados por doenças epidêmicas para as quais a Medicina Alopática não tem tratamento curativo eficaz nem vacinas disponíveis? A sociedade civil talvez não formule perguntas de forma tão direta e objetiva. Mas terá alguém alguma dúvida sobre a pertinência da questão? Mesmo os mais céticos, aqueles que vivem a proclamar a “morte da homeopatia”, a defender sua extinção, mesmo estes poderão, em sã consciência, coerentes com sua própria forma de pensar, afirmar com base em documentos científicos irrefutáveis que a Medicina Homeopática nada tem a acrescentar à população ameaçada por tais epidemias?
Não estamos tão distantes dos fatos. Nos últimos anos, vivemos no país diversas epidemias brutais de dengue, uma doença viral para a qual não existe tratamento alopático específico, nem vacina eficaz. Por parte das autoridades de Saúde, em suas várias instâncias, não se ouviu falar de iniciativas sistemáticas visando articular a medicina homeopática aos esforços para combater as epidemias. Algumas experiências isoladas, valiosíssimas experiências como as que relataremos brevemente adiante, mas que, não sendo articuladas, não foram capazes de mobilizar o paquidérmico monstro da burocracia e, consequentemente, não deram respostas definitivas às questões que afligem a sociedade.
O combate à dengue
Em 2001, o Dr. Renan Marino administrou um medicamento homeopático a 40% da população do bairro São Cristo Rei, em São José do Rio Preto (SP), tendo obtido redução drástica na incidência da doença em relação a outros bairros da mesma cidade. A metodologia para obtenção e análise dos dados obtidos pode ser questionada, mas os dados seriam suficientemente robustos para indicar a necessidade de pesquisas mais aprofundadas. O que foi feito? Nada.
A partir de 2007, a Dra. Laila Nunes passou a realizar um programa anual de profilaxia para dengue com um complexo homeopático (3 medicamentos, todos na 30 CH) junto à população da cidade de Macaé - RJ. Novamente, os dados obtidos são contundentes para, no mínimo, determinar que pesquisas metodologicamente mais rigorosas fossem realizadas para confirmar ou negar os indícios de um efeito protetor importante para a população tratada – comparando os anos de 2007 e 2008, o Município de Macaé apresentou queda de 93% na incidência de dengue, enquanto outros municípios com incidência anterior semelhante (Cantagalo, Angra dos Reis, Rio de Janeiro, Seropédica e Piraí) apresentaram aumentos significativos (respectivamente, 427%, 1.295%, 322%, 117% e 16%). Diante destes resultados, que atitude foi tomada pelas autoridades sanitárias brasileiras? Nenhuma.
Ao final da última epidemia de dengue no Rio de Janeiro, após uma experiência de atendimento voluntário da população por alguns homeopatas a partir de uma iniciativa da ONG Ação pelo Semelhante, formou-se um grupo de estudos com o objetivo de formular um protocolo de pesquisa visando avaliar a efetividade de uma determinada forma de intervenção homeopática na prevenção de novos casos de dengue. Contamos com a inestimável ajuda do Dr. Luiz Antônio Camacho, epidemiologista da ENSP-FIOCRUZ. Este protocolo foi escrito e apresentado a autoridades da Secretaria Estadual de Saúde e Defesa Civil do RJ.
Fomos muito bem recebidos, todos concordaram com a pertinência da proposta, o protocolo foi elogiado, mas não houve condições de implementar a pesquisa. Tudo é muito difícil, o Ministério da Saúde é muito criterioso na liberação de verbas, seria importante que houvesse uma universidade apoiando, seria interessante que houvesse uma ponte com a Secretaria Municipal de Saúde, entre outros argumentos que fazem parte do emaranhado que, digamos assim, protege o núcleo duro hegemônico das investidas daqueles curiosos por novidades.
O combate à gripe H1N1
Com a aproximação da epidemia de gripe (H1N1), e aproveitando que se tinha formado um grupo de discussão virtual contando com a participação de homeopatas e de representantes das diversas instâncias de governo (municipal, estadual e federal), sugerimos que o protocolo formulado para a dengue fosse adaptado para a Influenza H1N1 com vistas a iniciar testes para verificar a efetividade da homeopatia na prevenção e no tratamento da doença. Não há vacina. Não há tratamento específico.
A população tem o direito de saber. Nós temos o dever de responder. No entanto, nenhuma resposta. Culpa? De ninguém. Evidentemente estamos diante de uma decisão política global. O Estado não se abala, não se mexe, não faz nada porque alguém teve uma ideia em algum lugar. As coisas simplesmente não acontecem assim. Nada foi feito e nada será feito, a não ser que seja sentida a força de expressão do desejo da cidadania.
A Homeopatia pode contribuir para a prevenção e o tratamento dos indivíduos no curso de epidemias? Minha resposta é sim, como é afirmativa a resposta que nos dá a história. Mas reconheço que tais respostas não são suficientes. Reconheço que os gestores de Saúde têm necessidade de algo mais afirmativo do que as histórias de tantos anos atrás. Reconheço que há necessidade de pesquisar, de propor metodologias que sejam aceitas por todos como capazes de investigar os efeitos produzidos pelo tratamento homeopático aplicado a populações no controle de epidemias. Reconheço o direito de quem formula questões, de quem se coloca em dúvida, assim como reconheço o meu direito aos recursos para tentar respondê-las.
Nós homeopatas queremos ter o direito de trabalhar, de exercer nossa arte e nosso ofício, contribuindo para a resolução dos problemas de saúde da sociedade brasileira. Queremos ter o direito de atuar de forma articulada com as instâncias organizadas da saúde pública, com acesso a verbas para pesquisar, contando com a colaboração de colegas especialistas para dar respostas objetivas e respaldadas às questões implícitas ou explícitas formuladas pela sociedade, sempre que se vê ameaçada por uma epidemia.
É terrível a sensação de estar à margem, vendo milhares de pessoas adoecendo, com a certeza de que poderia estar fazendo mais, atuando de forma mais sistemática, articulada e consequente, em vez de se limitar a uma prática marginal, baseada em opiniões pessoais, transmitidas por meios periféricos, sem qualquer avaliação ou controle.
A quem serve este tipo de prática? A sociedade demanda e as respostas são dadas, mas de forma desorganizada, assistemática, por meio de mensagens eletrônicas, reportagens em jornais, boca a boca, vizinho falando com vizinho. Alguém ouviu dizer que tal remédio homeopático é bom para a gripe, ou para a dengue. Os espaços vazios vão sendo ocupados, e as autoridades de saúde deixam que aconteça. Preferem ignorar a demanda da sociedade por informação qualificada. Preferem ignorar o apelo dos homeopatas para que sejam ouvidos. Talvez seja preciso falar mais alto.
COMENTÁRIOS (3)
FERNANDO PITANGA às 19:23h do dia 30/11/2009
Acredito que as autoridades só se manifestarão de forma favorável ao tratamento homeopático nas epidemias se houver forte pressão política. Para isso acontecer é preciso o apoio da população que deverá estar informada das vantagens e do direito ao tratamento homeopático. Em outras palavras acho importantíssimo que as instituições homeopáticas façam um trabalho de informação, maketing mesmo, a população sobre homeopatia. É claro que é muito importante o lado científico, trabalhos que validem cada vez mais a efetividade do tratamento homeopático nas epidemias e de uma forma geral, mas só isso não basta: As autoridades políticas e médicas, assim como as pessoas em geral, não são movidas por verdades científicas, mas por pressão, propaganda e coisas assim.
ODIMARILES DANTAS às 20:55h do dia 13/10/2009
Concordo com a exposição e com os comentários do Homeopata Hilton Sarcinelli, mas como dizia o articulista talvez precisemos gritar mais alto.
Mas como issoé possível? Acredito que temos instrumentos nas mãos para começarmos a utiliza-los: os PROTOCOLOS, PRECISAMOS UTILIZÁ-LOS,
e mostrarmos os resultados com estudos cuidadosos, somente assim seremos ouvidos de fato.
HYLTON SARCINELLI LUZ às 11:32h do dia 28/9/2009
A clareza da exposição é meridiana, não deixa nenhuma margem a dúvida. O articulista convoca as autoridades do campo da saúde a se manifestarem sobre uma questão que lhes diz respeito e compete responder. Que lhes diz respeito pelas responsabilidades que assumem com a sociedade quando assumem os cargos que têm. Ou será próprio ao comportamento de autoridades na saúde, em seus diversos âmbitos, guardarem silêncio e se omitirem na resposta à indagações desta natureza?