| 4 de fevereiro de 2012 | 10:43h | Bom dia |

O médico homeopata Marcus Zulian Teixeira é coordenador da disciplina eletiva Fundamentos da Homeopatia na Faculdade de Medicina da USP. Acostumado a discutir as noções de saúde e doença , ele explica em entrevista como a alopatia pode se aprimorar a partir dos conhecimentos da prática homeopática . Ao final, você encontra uma referência bibliográfica para se aprofundar nos assuntos a seguir. Para entrar em contato com médico, basta acessar www.homeozulian.med.br. Confira.
1- Em quais aspectos a Homeopatia pode contribuir com a Medicina Alopática?
Principalmente, em dois aspectos: na ampliação do entendimento do processo saúde-doença e da terapêutica. A Homeopatia não vê o ser humano apenas com um conjunto de órgãos dissociados. Com uma abordagem mais globalizante, nós consideramos os diversos aspectos da individualidade humana (psíquicos, emocionais, sócio-ambientais, climáticos, alimentares etc.) como parte constituinte ou desencadeadora dos distúrbios orgânicos. Isso acontece porque a interação entre esses diversos fatores interfere no adoecer e no estar saudável. A Homeopatia se propõe a atuar nessas diversas esferas de forma integrada, englobando as diversas suscetibilidades do indivíduo no diagnóstico do desequilíbrio vital e na escolha do medicamento homeopático.
2- Por este motivo é que o momento da consulta é tão importante?
Sim. A nossa dinâmica semiológico-terapêutica está diretamente relacionada à concepção holística do processo de adoecimento humano. Em vista de a Alopatia atuar segundo uma concepção estritamente fisiopatológica do processo saúde-doença, propondo-se a re-equilibrar as disfunções fisiológicas e neutralizar os sintomas incomodativos através do emprego concomitante de diversos medicamentos, ela precisa de um tempo menor de consulta para estabelecer o diagnóstico e a terapêutica. Vale ressaltar que esse objetivo de aliviar o sofrimento imediato é necessário e fundamental numa série de transtornos humanos. No entanto, a visão antropológica homeopática e sua correspondente concepção integrativa do processo saúde-doença, fundamental à compreensão e ao tratamento das enfermidades crônicas, mobiliza-nos a buscar entender durante a consulta os diversos aspectos idiossincráticos que predispõem ao adoecimento da pessoa, além dos desequilíbrios fisiopatológicos da doença. Assim sendo, necessitamos de um tempo maior de consulta para estabelecer o diagnóstico e a terapêutica homeopática, valorizando as diversas suscetibilidades de cada paciente e selecionando, através da lei dos semelhantes, um medicamento que possa atuar nesse conjunto de características ou sintomas (individualização do medicamento).
3- Existem medicamentos comuns para queixas comuns?
Não. Essa “alopatização” da Homeopatia, que despreza a individualização do medicamento para o conjunto de suscetibilidades de cada indivíduo, ministrando o mesmo medicamento para diversos indivíduos com a mesma doença, é a causa do insucesso terapêutico observado na prática clínica e nas pesquisas. Exemplificando numa doença bastante comum, apesar de a rinite alérgica ser uma síndrome composta pelo mesmo conjunto de sintomas (espirros, prurido, coriza e obstrução nasal), cada indivíduo doente apresenta a predominância de um ou outro grupo de sintomas, direcionando a prescrição homeopática individualizada para medicamentos diferentes. Além disso, como na maioria das doenças crônicas, aspectos psíquicos, emocionais, socioambientais, climáticos, alimentares etc. influenciam na manifestação da rinite, sendo fundamental que essas diversas suscetibilidades sejam diagnosticadas, valorizadas e tratadas, para que consigamos mudar o curso natural da doença, ideal de cura de todo homeopata. As dificuldades e limitações são grandes, porque você realmente precisa conhecer o indivíduo em sua totalidade característica e selecionar, dentre as diversas opções terapêuticas, aquele medicamento que tenha condições de despertar a reação vital curativa, tarefa árdua e muitas vezes demorada. Mas é nessa Homeopatia que eu acredito! Nessa Homeopatia que traz alívio contínuo e duradouro para quadros crônicos de longa duração, impressionando os colegas de profissão mais céticos.
4- A continuidade do tratamento é fundamental para o seu sucesso?
Perfeitamente. Após o início do tratamento, é preciso observar o comportamento dos pacientes continuamente. Na maioria das vezes, demoramos algum tempo para individualizar o medicamento correto, necessitando de avaliações e prescrições periódicas para atingirmos esse intento. É importante ressaltar que se o medicamento não for individualizado, ou seja, não apresentar semelhança com a totalidade de sintomas característicos do indivíduo, a melhora que pode ser observada é fruto do efeito placebo (em torno de 30%, segundo a literatura). O paciente pode ter melhoras, mas muito em função da sua expectativa numa promessa de melhora do que pelo remédio em si. Em vista desse tempo necessário para o ajuste do medicamento ideal, não podemos abrir mão dos remédios alopáticos. Seria uma irresponsabilidade e uma conduta antiética, por exemplo, suspender um medicamento hipotensor de uma pessoa que tem problemas de pressão alta até que tenhamos certeza da ação do medicamento homeopático escolhido, inclusive na normalização da pressão arterial.
5- Você dá aulas na USP. Como é a recepção dos graduandos de Medicina em relação a uma disciplina eletiva sobre os fundamentos de Homeopatia?
Oficialmente, comecei a dar aulas em 2003 para os estudantes do 2º ao 4º ano da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). A recepção deles é ótima, devido ao fato de ser uma disciplina eletiva. Assim, já existe um filtro de interesse daqueles que querem aprender mais sobre o assunto. Temos um site (www.fm.usp.br/homeopatia) com amplo material bibliográfico, onde o aluno pode navegar para ir se preparando, ter uma prévia das aulas. Eles sempre perguntam sobre outras oportunidades de ensino, desenvolvimento de projetos de pesquisa, querem estudar mais. Têm as mentes abertas, livres de preconceitos. Mas ainda sentimos falta de uma parte mais prática (ambulatório didático), pois a disciplina é praticamente teórica. São cerca de 60-70 horas de aulas expositivas e seminários. Todos os alunos assistem a uma anamnese homeopática e acompanham a evolução de um caso sob tratamento. Além disso, com o intuito de ampliar a dinâmica vivencial, os estudantes participam, de forma optativa, de uma experimentação patogenética de um medicamento homeopático conhecido, consolidando os pressupostos homeopáticos aprendidos em aula. Pesquisas em diversos países indicam que, em geral, os estudantes de medicina gostariam de aprender Homeopatia, acupuntura e outras práticas médicas não convencionais durante o curso de Medicina.
6- Você considera que o preconceito em torno dos fundamentos homeopáticos ainda seja grande?
O preconceito é algo forte e apenas a informação é capaz de dissolvê-lo. Em geral, os alunos de Medicina e a população seguem a opinião dominante, assim como a maioria dos médicos nas faculdades de Medicina e nos hospitais. Eles carregam preconceitos e misturam muitos conceitos; ainda veem a Homeopatia como algo de fitoterapia, algo alternativo, que precisa ser bem esclarecido. Por isso, portais como o Ecomedicina, os diversos sites de Homeopatia, os artigos, as publicações científicas, os cursos e as disciplinas são importantes. O meio acadêmico é cheio de vícios. O que deveria ocorrer era que aulas sobre os fundamentos da Homeopatia fossem ministradas de forma obrigatória no primeiro ano da faculdade, para que todos aprendessem os conceitos básicos.
7- O Brasil não tem tradição de pesquisa. Isso também contribui contra a disseminação dos conceitos homeopáticos?
Existe um certo receio e resistência por parte dos médicos homeopatas quando se fala em elaborar e produzir pesquisas. Eu ainda observo uma mentalidade contracultural forte impregnando a classe homeopática, fruto da concepção alternativa e naturalista de mundo, estigmatizando a ciência e a pesquisa acadêmica como meras propagandistas da indústria farmacêutica. No entanto, na FMUSP, eu convivo e aprendo com professores e pesquisadores abertos ao paradigma homeopático, que disponibilizam seus conhecimentos, departamentos e laboratórios para que projetos de pesquisa em Homeopatia sejam desenvolvidos. Se você se fecha para o aperfeiçoamento e o questionamento da sua prática, você não se interessa por pesquisas. Elas trazem respostas aos inúmeros questionamentos da prática médica, sobre o que funciona e o que não funciona etc. Há dificuldades em se fazer pesquisas em Homeopatia por diversos fatores: adaptação dos modelos convencionais a episteme homeopática, falta de tradição no meio acadêmico, necessidade de o médico abrir mão da sua zona de conforto etc. Quantos pesquisadores homeopatas existem nas faculdades? Cada um precisa conquistar o seu espaço. Tenho buscado desenvolver atividades homeopáticas junto àFMUSP ministrando aulas, organizando cursos, apresentando trabalhos nas disciplinas, desenvolvendo projetos de pesquisa e levando a informação homeopática aos colegas de profissão. No entanto, tenho consciência de que essa construção é frágil e que não seria possível sem o apoio do Professor Mílton de Arruda Martins, professor titular da disciplina de Clínica Médica Geral.
8- Apesar de todas as dificuldades citadas, a procura pela Homeopatia vem crescendo, não?
Depende de qual público estamos falando. Entre os médicos, a procura por cursos de especialização em Homeopatia caiu vertiginosamente na última década. A Associação Paulista de Homeopatia (APH), uma das entidades de classe com maior tradição no ensino da Homeopatia no Brasil, chegou a fechar seu curso recentemente porque não haviam alunos interessados. Coisa que nas décadas de 80-90 não acontecia. Existiam filas de espera. Os fatores são muitos, as condições para a prática da Medicina estão muito difíceis. Os profissionais hoje buscam a super-especialização. Eles não querem mais práticas generalistas, como a pediatria e a clínica geral, por exemplo.
Já do lado do paciente a procura é grande, porque há um movimento crescente pela humanização da Medicina numa sociedade onde os instrumentos e os exames têm substituído a relação médico-paciente. Os fatores para o aumento dessa busca são três e estão descritos em inúmeras pesquisas realizadas em diversos países: melhora da relação médico paciente, ideia de ausência de efeitos colaterais (digo ideia, porque a Homeopatia também faz mal quando mal prescrita) e a busca do paciente por uma Medicina que aborde e trate o indivíduo em sua totalidade (corpo, mente e espírito).
Referência Bibliográfica:
1) Teixeira MZ. Possíveis contribuições do modelo homeopático à humanização da formação médica. Revista Brasileira de Educação Médica (RBEM) 2009; 33(3): 454-463. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rbem/v33n3/16.pdf
2) Teixeira MZ. Bases psiconeurofisiológicas do fenômeno placebo-nocebo: evidências científicas que valorizam a humanização da relação médico-paciente. Revista da Associação Médica Brasileira (RAMB) 2009; 55(1): 13-18. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ramb/v55n1/v55n1a08.pdf
3) Teixeira MZ. Homeopatia: prática médica humanística. Revista da Associação Médica Brasileira (RAMB) 2007; 53(6): 547-549. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ramb/v53n6/a26v53n6.pdf
4) Teixeira MZ. Homeopatia: desinformação e preconceito no ensino médico. Revista Brasileira de Educação Médica (RBEM) 2007; 31(1):15-20. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rbem/v31n1/03.pdf
5) Teixeira MZ, Lin CA, Martins MA. Homeopathy and acupuncture teaching at Faculdade de Medicina da Universidade de Sao Paulo: the undergraduates attitudes. São Paulo Medical Journal (Sao Paulo Med J) 2005; 123(2): 77-82. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/spmj/v123n2/a09v1232.pdf
6) Teixeira MZ, Lin CA, Martins MA. O ensino de práticas não-convencionais em saúde nas faculdades de medicina: panorama mundial e perspectivas brasileiras. Revista Brasileira de Educação Médica (RBEM) 2004;28(1):51-60. Disponível em: http://www.educacaomedica.org.br/UserFiles/File/2004/volume28_1/ensinos_de_praticas.pdf