18 de maio de 2012 | 15:12h | Boa tarde     


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DR. PAULO ROSENBAUM

O Dr. Paulo Rosenbaum não é apenas um médico especializado em homeopatia. Ele é editor da revista Cultura Homeopática, autor de seis livros na área médica, além de ter trabalhado no roteiro do filme “O nome do cuidado”. Acostumado a pesquisar temas como a homeopatia, a história da medicina e aspectos filosóficos da atenção à saúde, Rosenbaum avalia o cenário médico brasileiro e a falta de informação sobre o tratamento homeopático em entrevista concedida ao Ecomedicina. Confira a primeira parte do bate-papo.



Ecomedicina - Qual o cenário da homeopatia no Brasil? Como ela vem se desenvolvendo nos últimos anos?

Paulo Rosenbaum - Acho que o cenário está turvo. Minha percepção não deve ser, infelizmente, a mesma que a maioria. Não acredito que o problema se deve à desmobilização dos colegas ou a perseguição às minorias. Claro que esses são ingredientes importantes, mas são conseqüências. Isoladamente não conseguem explicar o esvaziamento do campo. Vejo que a homeopatia pode ser um grande e compreensivo sistema de saúde que tem bases epistemológicas sólidas e pode mostrar cientificamente suas contribuições à saúde da sociedade. Inclusive contribuições para além do campo de saúde propriamente dito. Mas o problema é se a sociedade deseja aquilo que os médicos que praticam a homeopatia oferecem; e se aceita, como fazer para que o acesso seja feito mediante equidade e universalmente como prega – em teoria – o SUS, por exemplo.

A sociedade não parece desejar o que os homeopatas estão oferecendo por muitas razões e nem que eu desejasse saberia enumerá-las todas; mas as principais tenho que expor mesmo que isso cause mal estar e incompreensão. A primeira delas é que a homeopatia como idéia e como uma concepção vitalista de compreensão de saúde e enfermidade é bela e pertinente. Mas ela é bela e pertinente para quem? A sociedade quer respostas cada vez mais rápidas e demonstráveis da eficácia – não importa muito se esta efetividade seja efêmera ou produzida -- as vezes até forjada -- para dar a segurança de que estamos diante de um procedimento científico irrefutável e seguro. Neste cenário perderemos e perderemos terreno, pois precisaríamos de décadas de publicações referentes às CAM para ousar alguma equivalência com o número impressionante de ensaios clínicos standard publicados num único mês.

Assim, o principio da competição e da falta de recursos para executar as pesquisas só fazem aumentar o buraco existente entre procedimentos “provados” e hipóteses, por mais bem sucedidas que aparentem ser. Mas não acho que seja uma armadilha perseguir o melhor resultado possível quando se trata de mostrar efetividade. Temos que continuiar tentando ainda que não tenha mapeado como pesquisador e como editor um único estudo epidemiológico que dê conta da complexidade dos eventos com os quais se lida no campo terapêutico.

Apenas que simplesmente essa não será uma moeda cientifica capaz de comprar nossa plausibilidade, pois será sempre insuficiente frente ao gigantesco mundo opressor das pesquisas que referendam não só a medicina standard como o status quo do modelo de compreensão da saúde-doença que tão bem conhecemos. E não cabe mais brigar contra ninguém. A manutenção de uma oposição em bases ideológicas “contra os algozes perseguidores da ciência oficial” não só não faz mais sentido como confere aos aclives e declínios parabólicos típicos da trajetória histórica da homeopatia, um vestígio patético de que sempre temos alguém para querer culpar ao invés da tarefa, dura, pesada, melancólica até, de enxergar e apontar para nossos tropeços, nossos enganos, e especialmente analisar nosso discurso que subloca o desejo de supremacia. Enfim precisamos fazer a autocrítica radical. Acho cansativo me repetir mas fazer o que? Claro que – ao recusarmos o tom laudatório -- corremos o risco de ser acusados de quinta coluna, de termos sido cooptados pelo complexo farmacêutico industrial que quer esmagar as práticas que ameaçam o “império da saúde química.” Uso aspas voluntariamente para enfatizar o ridículo e o desproposito de ainda acreditar em mega teorias conspiratórias para explicar nossa relativa pouca importância para o mundo cientifico.

O outro problema refere-se a uma concessão indiscriminada – que inicialmente parecia um bom negócio para que o meio homeopático entrasse em consenso – sobre o tipo de prática médica homeopática que cada um pratica. Claro que há que se respeitar a diversidade de procedimentos e de interpretações sobre a filosofia hahnemanniana. Isso é indiscutível. O que é inconcebível é que se aceite descontextualizadamente a tese de “que qualquer coisa serve”. Não. Não serve. Não é qualquer homeopatia ou prática das CAM -- ou medicinas integrativas (MI) - que servem. Há teorias e procedimentos tão estapafúrdios que caberia aos médicos de bom senso repelirem ativamente estas formas esdrúxulas de praticar a lei dos semelhantes ou a administração de agulhas. Não clamo por censores, mas sejamos ao menos críticos. Não pode passar incólume que médicos -- famosos ou não-- afirmem generalizações absurdas ou instiguem os estudantes a acreditar em verdadeiros estelionatos terapêuticos.

Temos que fazer isso antes que os outros façam. Este sentimento de proteção que se faz quando se coloca para dentro do “guarda chuva da diversidade” nos coloca em maus lençóis quando alguém levanta pérolas como “tratamos e curamos 100% dos pacientes com AIDS” ou “na minha prática curo 80% dos pacientes com neoplasias”. Não, não curam e não, não tratam com esta porcentagem de sucesso. E não, talvez não seja este o foco da homeopatia. Não se pode mais pensar em trabalhar como se só uma forma de abordagem médica existisse ou fosse a mais sábia. Isso só faz aumentar o descrédito de uma medicina que teria muito a oferecer ainda que provavelmente ela ofereça menos do que sua pretensão anuncia.


Ecomedicina - Por que as pessoas ainda tem certo medo, resistência aos tratamentos?

Paulo Rosenbaum - As pessoas não tem medo, elas simplesmente ignoram. Não tem resistência, desconhecem. Achei muito interessante a postura do médico britânico David Reilley, um médico que pratica a homeopatia, inclusive em ambiente hospitalar, mas tem a cabeça aberta para entender que ela não deve ser nem hegemônica muito menos uma atividade desconectada de toda medicina. Ele afirma que os médicos e as pesquisar devem investir mais em entender como os pacientes se curam. Acho que esse é um ponto meio obscuro, mas que precisa ser melhor compreendido. O fato das pessoas desconhecerem como deve ser conduzido um tratamento dentro das várias CAM decerto dificulta muito que elas façam a opção. No caso especifico da homeopatia sua abrangência metodológica e técnica poderia fazer com que um número enorme de pessoas se beneficiasse desta sua intervenção na esfera da atenção primária à saúde.

Outro aspecto que não ajuda muito é que não existe porta voz unificado que se responsabilize de fato sobre quais as propostas sérias dentro da especialidade. Isso significa que temos problemas de comunicação com o público e que muito do que se pratica está automaticamente validado. Agravado pelo fato de que não temos lobbies de pacientes atuando para pressionar, por exemplo, o Ministério da Saúde ou o poder publico para que aumente a oferta de servicos e de pesquisas nessa área. Precisamos de mais ONGs e mais representatividade. O abaixo assinado é uma das formas de se conseguir isso ainda que não seja a única. O medo que você se referiu pode estar ligado a essa “obscuridade” quanto as perspectivas que a homeopatia oferece, mas é um problema geral que envolve todas as MI.


Ecomedicina - Algumas pessoas ainda acreditam que a homeopatia se baseia totalmente em elementos da natureza. O que podemos dizer a essas pessoas?

Paulo Rosenbaum - Depende do que se quer dizer “elementos da natureza”. Se isso significa que a homeopatia não lança mão de substâncias químicas, como drogas conhecidas e sintetizadas em laboratórios isso é um equivoco conceitual. A homeopatia, como se sabe, usa recursos farmacêuticos vindos de toda parte, do reino mineral, vegetal e animal, secreções e produtos patológicos que vem das plantas dos animais e até dos seres humanos. E usa também substâncias químicas como drogas muito usadas nas terapêuticas standard como corticóides, antibióticos, nitroglicerina, mistura de elementos, assim como energia física como a dos magnetos e raios X, por exemplo.

Ainda que todas estas devem ser submetidas a procedimentos farmacotécnicos peculiares à orientação hahnemanniana. Agora é inegável que a idéia romântica de um “tratamento natural” seduz, mas é difícil dizer se cabe, especialmente se pensarmos que usamos todos os recursos com a intenção de produzir nas pessoas respostas que permitem que ela possam usar seus próprios recursos (biológicos, anímicos, psíquicos e ambientais) em seu benefício. Se ela é natural? Acredito que usamos e nos esforçamos ao máximo para encontrar referencias nas patogenesias – sim elas ainda são as bases empíricas do método apesar de tudo que se dito em detrimento delas hoje em dia -- para encontrar o melhor fármaco possível para a pessoa enferma ou que precisa de ajuda e despertar nela uma mudança.

Fiz essa ressalva distinguindo a pessoa com alguma moléstia crônica de uma pessoa que precisa de ajuda pois a homeopatia trata de um tipo especial de sujeito que são aqueles que não tem diagnósticos precisos e ainda assim apresentam um mal estar impreciso e difuso que pode melhorar com o tratamento. A homeopatia tem ainda um efeito colateral, um verdadeiro trunfo, ainda incompreendido e inexplorado, que é a generosidade oriunda de sua anamnese.

Esta forma especial que os médicos relembram os problemas patográficos (da doença) e as vicissitudes e virtudes biográficas das pessoas é um instrumento poderosíssimo que pode ser usado para encontrar o medicamento, mas também ajudar a pessoa na tarefa, difícil, de buscar entender como ela compreende sua própria situação e o mundo que ela habita. Diferentemente – mas não antagônico – às práticas psicoterápicas ela não tem um referencial teórico especifico, mas, pode muito bem usar isso como uma virtude (e não uma lacuna teórica) se souber usar de forma inteligente o diálogo terapêutico para gerar orientação e aconselhamento. Sempre nos limites estreitos da técnica, dentro daquilo que conhecemos por amizade médica, e tendo ampla consciência dos fenômenos conhecidos por transferência e contratransferência.


Para ler a segunda parte da entrevista clique aqui.


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COMENTÁRIOS (1)

ODIMARILES DANTAS às 00:44h do dia 12/1/2010
Meu caro Paulo Rosembauch,
grata pela lucidez com que você trata desse assunto. Concordo plenamente quando você fala da nossa prática e cita o David Reilly.
Mesmo concordando com as colocações referentes à pesquisa, tem alguns pontos que me deixam sempre duvidas e que foi repetido e repetido por outros colegas: a questão do financiamento, a resistência de órgãos de fomento em subsidiar pesquisas em homeopatia, etc. Acredito que não encontramos ainda o "caminho" do pesquisar homeopatia. Um grande abraço, Odimariles Dantas









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