| 18 de maio de 2012 | 15:11h | Boa tarde |

A indústria farmacêutica é a mais poderosa do planeta, sentencia o presidente da Associação Médica Homeopática Brasileira (AMHB), Carlos Fiorot. Para o médico, a necessidade de “enxergar” a saúde de forma mais ampla, diferente do “olhar de determinados grupos e empresas”, é urgente. Apesar de combaterem doenças, essas empresas vendem produtos, adverte.
Com essa diretriz, o especialista aborda nesta entrevista a aceitação da Homeopatia no Brasil e a “luta” para associá-la à Medicina Convencional no Sistema Único de Saúde (SUS). Fiorot comenta ainda que as pesquisas médicas, aqui e no exterior, estão aquém das necessidades. E mesmo nas instituições dedicadas ao estudo da Medicina, o conhecimento da Homeopatia não é integralmente aproveitado. Como exemplo, cita as epidemias. “Apesar da descoberta de vacinas e antibióticos, o controle de certas doenças está longe de acontecer como previsto”, analisa.
Dr. Carlos Fiorot - Primeiro é preciso separar a Homeopatia praticada no Brasil e aquela praticada na Europa. As críticas recentes foram feitas por profissionais europeus e estão relacionadas à África e aos países em desenvolvimento. De uma maneira geral, a Europa não vê a Homeopatia como o Brasil vê, não só do ponto de vista político, mas também do científico.
O Brasil enfrentou dificuldades nesses quase 30 anos, que se tornaram um diferencial. Conquistamos o reconhecimento que coloca a Homeopatia do Brasil no hall do debate da ciência internacional. Essa não é uma conquista alcançada por decretos, mas sim pelo debate, pela luta de ideias, que permeiam todas as nossas conquistas nesse período.
Quando temos uma conquista institucional, como o reconhecimento pelo Conselho Federal de Medicina, as outras vêm acopladas. Por isso, não podemos esperar de outros países que não viveram essa experiência como a nossa, a consolidação da Homeopatia tal como encontramos no Brasil.
PE - A que o senhor atribui o medo que ronda a aceitação da Homeopatia como uma prática eficiente de preservação e cuidado da saúde?Dr. Carlos Fiorot - São vários os fatores. Existem as incompreensões, as posições ingênuas, além das opiniões consolidadas que são contrárias. Nesses casos, temos que considerar que o indivíduo viveu experiências com profissionais que não são qualificados e institucionalizados para aplicar o conhecimento homeopático. Em termos gerais, desconheço as realidades vividas por cada um, mas ainda assim não há motivos para alarmes contra a Homeopatia.
PE - Na sua opinião, qual é a motivação do Voyces of Young Science para este recente ataque a Homeopatia?Dr. Carlos Fiorot - Não posso fazer afirmações, e sim supor. A indústria farmacêutica é a mais poderosa do planeta. E tem a necessidade de se autoalimentar. Devemos lembrar que apesar de trabalhar com a saúde, a empresa vende produtos. A população precisa enxergar a saúde de uma maneira mais integral e ampla. Além disso, o olhar do doente e o da população não pode ser o mesmo de determinados grupos e empresas.
PE - De que maneira Homeopatia e Alopatia podem construir alianças mais amplas em prol da saúde e bem-estar da população?Dr. Carlos Fiorot – No Brasil isso já acontece mesmo antes do reconhecimento da Homeopatia enquanto especialidade médica. Desde que ela chegou ao país, temos a tradição de formar médicos para o exercício da Homeopatia. Aliás, esse é um preceito hahnemanniano. Ele cita que a Homeopatia é uma forma terapêutica que requer destreza. É preciso muito aprimoramento profissional para ser aplicada. Independente de o médico ser homeopata, ele tem as suas responsabilidades éticas.
A Homeopatia tem sua aplicação junto com outros campos de conhecimento. A Medicina Natural e a Homeopatia, como atividade médica, interagem com as outras especialidades sem problemas. Essa convivência tem sido harmônica e amadurecida. As dificuldades encontradas nesses 30 anos foram muito bem vencidas.
PE - Qual a importância de um portal como o Ecomedicina para a classe médica, profissionais e a população?Dr. Carlos Fiorot – É um ganho social, científico e político porque cria condições de democratizar os debates, as opiniões e ideias. Sem fala em democratizar o acesso às informações que não temos, de maneira organizada.
O lançamento de um portal como o Ecomedicina apoia e constrói essa interface com diferentes áreas que se complementam. É uma iniciativa feliz, que espero que se consolide gradualmente. E todos nós vamos contribuir para isso.
PE - Existe incentivo financeiro para a área de pesquisa homeopática?Dr. Carlos Fiorot - Existem pesquisas no Brasil e exterior, mas elas estão aquém das necessidades - não só da Homeopatia, mas da população mundial. O campo do conhecimento médico, com toda a credibilidade, não é suficiente para as necessidades das populações. Existe muita coisa a se fazer, muita coisa para ser melhorada, e afirmo que a Homeopatia, além dos conhecimentos que são aplicados, tem uma reserva de conhecimento muito subutilizada.
Ainda em instituições que se dedicam integralmente a pesquisas, as reservas de conhecimento da homeopatia ainda são subutilizadas. Como exemplo, cito o tratamento de doenças epidêmicas. A descoberta de vacinas e antibióticos trouxe uma perpectiva de que haveria controle dessas doenças, mas as coisas não estão fluindo dessa forma metafisicamente previsível.
As doenças epidêmicas exigem que a gente amplie o conhecimento e não só aperfeiçoe o conhecimento que já é utilizado. A homeopatia pode agregar muito nos campos de pesquisa, de trabalho coletivo, no Brasil. Podemos acrescentar e contribuir para a solução dos problemas da saúde mundial.
PE - Como a AMHB está se posicionando com respeito à Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares?Dr. Carlos Fiorot - Desde que surgiu a política, apoiamos a sua construção. Ainda que a posição institucional tenha sido favorável, perante os olhos do Conselho Federal de Medicina, a PNPI feria preceitos éticos, por isso a AMHB teve que rever sua posição e trazer a questão para debate com o conjunto dos homeopatas brasileiros.
PE - Como a AMHB analisa o fato de o texto da PNPIC não prever fontes de recursos e critérios que garantam um acompanhamento transparente pela sociedade?Dr. Carlos Fiorot – Estamos trabalhando em consonância com o Ministério da Saúde, abertos a debates e buscando a implantação das práticas. Eu, particularmente, já ajudei a implantar a Homeopatia em setores públicos desde 1986. Temos uma longa trajetória, uma história antiga relacionada ao serviço público e experiência acumulada. Existe outro ponto de vista que é o uso da Homeopatia no combate a doenças epidêmicas. É uma vertente prática desta questão. Não podemos apenas ficar restritos e fixados ao texto da política. Achamos que a clareza da fonte de recursos e seus critérios de aplicação são pontos fundamentais na consolidação dos seus objetivos maiores, carecendo de maior atenção neste aspecto.
PE - Quais as iniciativas que a AMHB está tomando para reverter a solicitação de impugnação judicial da PNPIC por parte da AMB e do CFM?Dr. Carlos Fiorot – As práticas integrativas já existem no SUS e precisam avançar. A política criou contradições entre a experiência mundial e a brasileira, em termos das especialidades médicas de Homeopatia e Acupuntura. Há armadilhas em relação a esta situação, haja vista o acontecimento recente envolvendo a Voice Of Young Science Network.
Em resumo, precisamos ter clareza das contradições existentes, suas complicações presentes e as complicações possíveis no futuro, que não queremos de forma alguma. Por isso, as ações da AMHB não estão ancoradas nos problemas, mas nas soluções já identificadas, onde estamos avançando, onde os caminhos já estão bem definidos. A ideia geral da política é favorável às necessidades dos usuários do SUS, tem importância no seu caráter estratégico para a saúde, a ciência e a tecnologia e fortalece a conquista da democracia do conhecimento. No entanto, a política não deixa evidente esta compreensão, uma vez que os municípios não conseguem resposta clara do ponto de vista do financiamento e dos estímulos para sua implantação. Digo isso por estar coordenando a implantação de um projeto de política de práticas integrativas em um município capixaba e não conseguir obter respostas claras e objetivas para estas questões, por exemplo, até para repassar aos gestores, que o ANA, VEJA AQUI SE É ISSO MESMO? indagam. As respostas ficam por conta do que comumente é o financiamento do SUS, para atendimento médico em geral. Esta conquista já havia antes da política, praticamente. Esperamos que, neste aspecto, também tenhamos grandes avanços, confirmando de fato a importância do assunto para os diversos ministérios envolvidos.
PE - A história da Homeopatia no Brasil teve sua origem entre as classes excluídas, graças ao custo reduzido e a eficiência dos medicamentos. O caráter de uma Medicina social e engajada volta à tona com a inclusão da prática homeopática no Sistema Único de Saúde. Quais os benefícios para a população?Dr. Carlos Fiorot – A Medicina Social não pertence ao campo da luta empresarial da Medicina. Ela tem caráter social, político, ideológico, científico. Ela é interessa aos avanços das conquistas do povo, das conquistas do conhecimento e da democracia.
A Medicina Social já teve mais momentos calorosos. Na época de Hahnemann, tivemos frutos da luta da Medicina Social na Europa, como a Barricada de Berlim, em 1850, e a Comuna de Paris. Havia lideranças médicas nessas conquistas.
Benoir Mure esteve no campo de luta também, no Brasil. Ele era um militante, assim como todos nós somos. Os homeopatas se posicionam pela luta de uma Medicina Social, por mais que não sejam engajados. Os benefícios são inúmeros, e pelo momento democrático que vivemos, os debates sobre o conhecimento das práticas de direitos só traz ganhos para a população.